sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Do mar para o mar

Por Tatiana Maria


Boa tarde, pessoal!

Me apresento como uma das novas colaboradoras do Blog das Moléculas, graças a Tarcísio, colega de universidade e fundador deste blog, que gentilmente me cedeu um espacinho para informar as novidades numa área bastante interessante e relativamente inexplorada: a Oceanografia (ou Oceanologia) – ciência que se dedica ao estudo dos mares e oceanos, bem como das áreas que influenciam/são influenciadas por estes ambientes.

Crustáceos: os super-heróis de nossas águas

Você já ouviu falar nos crustáceos – aqueles animais com uma carapaça super resistente, que vivem sobretudo nos mares e em água doce, e são bem representados pelos caranguejos, siris, lagostas e camarões?

Pois saiba que estes animais, além de super importantes para o equilíbrio ecológico nos ecossistemas de que fazem parte, estão sendo protagonistas em um estudo realizado pela Unicamp (Universidade de Campinas), o qual visa descobrir formas eficazes para despoluir os efluentes despejados pelas indústrias em rios e mares.

Conhecendo o arquiinimigo

Desde o desenvolvimento de indústrias no Brasil e no mundo, temos enfrentado um grande problema causado pela liberação de substâncias tóxicas pelas fábricas nos cursos d'água, o que prejudica fortemente os ecossistemas ali presentes e inviabiliza o consumo pelas populações que fazem uso daquela água. Desta forma, é urgentemente necessário que sejam adotadas medidas para amenizar (ou, idealmente, eliminar) os efeitos maléficos dos afluentes industriais – e é neste ponto da história onde entram os crustáceos, dando uma “mãozinha” para mitigar os danos causados aos ambientes naturais!

Pelos poderes... da quitosana!

Este é o nome da fibra que está sendo extraída do exoesqueleto destes animais e utilizada para extrair metais da água e, assim, reduzir a toxicidade do lixo jogado em nossas águas! O estudo faz parte da tese de doutorado da química Elaine Cristina Nogueira Lopes de Lima, cuja equipe se concentrou em modificar a molécula de quitosana, para que esta se tornasse mais eficaz na retirada dos compostos tóxicos da água. Assim, a molécula "turbinada" de quitosana foi testada no experimento que utilizou como princípio químico a adsorção: primeiro, os pesquisadores simularam em laboratório uma solução aquosa com metais pesados; então, a quitosana modificada foi salpicada em pó nesta solução; em seguida, foi iniciado o processo de adsorção, em que as moléculas de quitosana interagiram com o metal e por fim o pó de quitosana, antes amarelo, tornou-se azul – indicando que o metal foi retirado da solução aquosa.

E tem mais: além de conseguirem determinar qualitativamente – por meio de alterações de cor – o processo, a equipe também conseguiu determiná-lo quantitativamente – por meio da calorimetria – observando que conseguiram retirar da solução 2mmol/g de metais pesados, o que é muita coisa, comparado à eficácia de outros tipos de quitosana modificada: "Em outras quitosanas modificadas, a quantidade de metal extraído da água era metade desse valor. Isso indica que a quitosana modificada por nós se apresenta bastante interessante", conclui Elaine.

Por que a quitosana vale a pena

Além de apresentar-se como uma boa alternativa de combate à poluição das águas, a quitosana apresenta inúmeras vantagens frente a outras substâncias utilizadas nesse contexto: é uma substância biocompatível, possui grande capacidade de retirar metais como cobre, chumbo e cádmio, promove o aproveitamento de rejeitos de crustáceos e pode ser reutilizada no mesmo processo, bastando passar pela dessorção, processo no qual o metal é retirado da fibra.

Este é apenas um dos exemplos de como os ambientes aquáticos (inclusive os marinhos) são importantíssimos como fonte de produtos naturais utilizados pela sociedade humana nas mais diversas atividades, produtos estes que talvez – e em muitos casos, muito provavelmente – não conseguiriam ser obtidos por síntese em laboratório; este é um dos incontáveis motivos pelos quais deve-se lutar pela preservação dos recursos naturais que o planeta Terra possui.

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Por ser uma ciência relativamente nova – surgiu há 40 anos aqui no Brasil – a Oceanografia ainda tem muitos passos a trilhar em nosso país; por isso, fico muito honrada em ser uma das pessoas que estão dando uma pequena contribuição para que esta área do conhecimento seja cada vez mais divulgada à sociedade. Mais esclarecimentos podem ser obtidos através dos sites da Aoceano - Associação Brasileira de Oceanografia, da comunidade Oceanografia no orkut e das universidades brasileiras que possuem este curso de graduação (uma delas, a FURG, possui os contatos de todas as outras).

Abraços e até a próxima!

Fonte: DiariodePernambuco.com.br

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